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Quinhentismo: a visão europeia do Brasil recém “descoberto”

O movimento não é uma escola literária, mas sim uma reunião de produções de navegadores

Padre José de Anchieta, representante do Quinhentismo

Os portugueses e os espanhois mal tinham acabado de descobrir que a Terra não era plana e que os oceanos não tinham monstros marinhos quando se depararam com um novo país. Portanto, as informações sobre a nova terra, com seus nativos e a sua natureza exuberante, foram fonte de inspiração para o Quinhentismo.

Embora as formas de comunicação, na época, fossem rudimentares, e as informações demorassem meses para atravessar os mares, os portugueses se comunicavam com os colonizadores por meio de cartas.

Assim, os textos, publicados anos depois, serviram como fonte de estudos para historiadores. Afinal de contas, eles se constituíram no principal documento da “descoberta” ou achamento do Brasil pelos portugueses.

Contexto histórico

Ele surge no contexto de efervescência cultural e social no mundo. Portanto, relembre os principais fatos históricos que marcaram o contexto de achamento do Brasil.

  • grandes navegações e descobertas de novas terras pelos europeus;
  • desenvolvimento do heliocentrismo (sol como centro do universo);
  • produção de novos instrumentos, como lunetas e cartas náuticas;
  • fim da Idade Média e surgimento do Renascimento (séculos 15 e 16);
  • Reforma Protestante deflagrada por Martinho Lutero, em 1517;
  • Contrarreforma da Igreja Católica, a partir de 1545.

Resumo

Em suma, o nome Quinhentismo foi dado em referência ao ano de 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil.

Contudo, é importante destacar que o movimento não é uma escola literária, mas sim uma reunião de produções de navegadores, cronistas e padres jesuítas sobre as impressões do Brasil.

Em suma, são correspondências e escritos com forte teor descritivo e informativo feitos por europeus que acabam de conhecer o novo território, denominado Brasil.

Logo, não se trata de uma produção dos nativos, até porque os indígenas tinham seu próprio dialeto (tupi) e não se tem conhecimento na História da literatura praticada pelos nativos.

Desse modo, o movimento se dá, principalmente, no decorrer do século 16, entre 1500 e 1601. Por consequência, a produção literária se refere ao Brasil e envolve também a chamada Literatura de Catequese, como eram chamados os textos escritos e dramatizações feitas por padres jesuítas.

Portanto, os principais representantes desse movimento foram o escrivão Pero Vaz de Caminha e Padre José de Anchieta.

Principais características do Quinhentismo

  • textos descritivos e informativos;
  • teor ligado à fauna e à flora brasileira;
  • crônicas de viagens;
  • relatos do comportamento e das características físicas dos indígenas;
  • uso de adjetivos;
  • exaltação da conquista material;
  • textos teocêntricos (cartas dos jesuítas);
  • apelo didático-pedagógico catequético (Literatura de Catequese).

Dessa forma, não se notava na produção literária a valorização da poesia, contudo se reforçava a descrição com linguagem simples para atender ao intuito de informar a Corte Portuguesa sobre a nova colônia conquistada do outro lado do mundo.

Principais autores

Assim como foi dito, o Quinhentismo se divide entre as cartas dos descobridores e os registros dos padres jesuítas que participavam da Contrarreforma e visavam ensinar o catolicismo aos indígenas, que eram politeístas.

Desse modo, confira abaixo os principais autores do período:

Pero Vaz de Caminha (1450-1500)

Pero Vaz de Caminha era vereador e escritor português. Foi convocado como escrivão da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral. Diante da chegada ao Brasil, escreveu sobre as primeiras impressões dos europeus sobre a nova conquista e as características do país tropical e tão diferente de Portugal.

Sua principal produção é a Carta de Achamento do Brasil, escrita em 1º de maio de 1500, endereçada ao rei Dom Manuel. A carta é, portanto, considerada o marco inicial da literatura brasileira.

José de Anchieta (1534-1597)

Padre jesuíta espanhol, José de Anchieta também era poeta e teatrólogo. Ele ficou conhecido pelos escritos direcionados à catequese dos indígenas.

Porém um dos seus maiores feitos foi ter sido contrário à violência dos conquistadores e ter buscado entender os indígenas para depois oferecer a eles o entendimento do cristianismo.

É dele, por exemplo, a obra “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, escrita em 1595 sobre o tupi, e “Poema à virgem” (que você verá mais adiante).

Pero de Magalhães Gândavo (1540-1580)

O professor, historiador e cronista Pero de Magalhães Gândavo também escreveu sobre as belezas do Brasil representadas pelas paisagens e os animais selvagens, além dos indígenas com seus costumes e trabalhos manuais.

Assim, entre as suas principais obras estão “História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil” e “O Tratado da Terra do Brasil”.

Manuel da Nóbrega (1517-1570)

O principal intuito de Manuel da Nóbrega foi catequizar os indígenas com seus escritos. Ele foi um jesuíta português e liderou a primeira missão jesuítica na América, no ano de 1549.

Para acrescentar, Nóbrega também participou da fundação das cidades de Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ).

Desse modo, entre as suas principais produções literárias estão: “Informação da Terra do Brasil”, “Diálogo sobre a conversão do gentio” e “Tratado contra a Antropofagia”, todas do século 16.

Alguns exemplos

reprodução da Carta de Caminha, símbolo do Quinhentismo

Portanto, Pero Vaz de Caminha, em sua primeira carta ao Rei Dom Manuel, escreveu suas impressões sobre o novo país. Confira um dos trechos da correspondência:

“Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural (…)”.

Já Padre Anchieta também descreveu os indígenas. Veja um trecho de “Poema da Virgem”:

“Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,

e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas?

Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto,

que a morte tão cruel do filho chora tanto?

O seio que de dor amargado esmorece,

ao ver, ali presente, as chagas que padece? (…)”

Caiu no Enem

O Quinhentismo é um movimento bastante cobrado nas provas dos vestibulares, concursos e do Enem quando o tema é literatura brasileira. Confira uma das questões, bem como o seu gabarito.

(ENEM, 2013) (A questão é acompanhada de uma tela de Portinari e de um trecho da Carta de Caminha):

“Pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro, a carta de Pero Vaz de Caminha e a obra de Portinari retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. Da leitura dos textos, constata-se que:

  • a carta de Pero Vaz de Caminha representa uma das primeiras manifestações artísticas dos portugueses em terras brasileiras e preocupa-se apenas com a estética literária.

(B) a tela de Portinari retrata indígenas nus com corpos pintados, cuja grande significação é a afirmação da arte acadêmica brasileira e a contestação de uma linguagem moderna.

(C) a carta, como testemunho histórico-político, mostra o olhar do colonizador sobre a gente da terra, e a pintura destaca, em primeiro plano, a inquietação dos nativos.

(D) as duas produções, embora usem linguagens diferentes – verbal e não verbal –, cumprem a mesma função social e artística.

(E) a pintura e a carta de Caminha são manifestações de grupos étnicos diferentes, produzidas em um mesmo momento histórico, retratando a colonização.

Gabarito: opção C. A Carta de Caminha é um testemunho que revela o olhar do colonizador sobre a conquista, enquanto que a pintura destaca os receios dos nativos.

Concluindo, o tema é rico em informações e, portanto, deve receber uma atenção especial na sua preparação para os vestibulares.

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Escrito por Redator Especialista em Literatura

Redator especialista em Literatura no Guia do Ensino.

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